Sunday, 17 February 2013

'Susana e o presidente' 1951

Vera Nunes fazia um mocinha não muito diferente de Deanna Durbin sans-le-voix.
'Suzana e o Presidente', produção de 1951, da Companhia Cinematográfica Maristela, com seus estúdios no bairro do Jacanã, em São Paulo. 

produção & direção: Ruggero Jacobbi
roteiro: Gino De Santis, Ruggero Jacobbi e Alfredo Palácios

Nota-se que os italianos predominavam na produção, além de aparecerem como atores (Otelo Zeloni quando ainda precisava ser dublado, pois não falava quase nada de português) e personagens (Arrelia faz um italiano com sotaque forte). 

Nitidamente feito seguindo os preceitos básicos de Hollywood, com uma mocinha simpática (Vera Nunes) calcada na imagem de Deanna Durbin; um herói atlético (Orlando Villar) que não deixa nada a dever aos melhores jogadores de rugby norte-americanos, inclusive com uma cena de chuveiro onde ele pode mostrar seu porte másculo. 

Politicamente incorretíssimo, a personagem Suzana, quando procurando emprego, levanta a barra da saia, acaricia as pernas e abre o zipper da frente, numa tentativa de mostrar os seios para o futuro empregador. Tal comportamento só seria justificado em filmes pornográficos nos dias de hoje.
17 July 1951 - Tuesday - Correio Paulistano announces 'Suzana e o Presidente' for Thursday, 19 July 1951
Orlando Villar, o presidente, mostrando seu physique em cena de chuveiro.

Vera Nunes (Suzana)
Orlando Villar (Roberto)
Arrelia
Jaime Barcelos
Leônidas da Silva
Luciano Gregory
Otelo Zeloni
Leila Parisi
Armando Couto
Diná Lisboa
Xandó Batista
Zilá Maria
Benedito Corsi
Margot Bittencourt
Elisio de Albuquerque


'Batei e abrir-se-vos-á!'
Leonidas da Silva, o famoso jogador de futebol faz papel dele mesmo... A presença dele no filme é quase que injustificada. Leonidas, na verdade 'descola' um emprêgo na firma, mas 'mata hora', lendo jornal com os pés apoiados na escrivaninha. Comportamento não muito ético para os dias de hoje. 
Vera Nunes lembra Jean Arthur e Otelo Zeloni de cabelos. Zeloni é dublado no produto final.
Arrelia faz um italiano que canta tenor e soprano nos finais de semana... O número não convence. Logo em seguida um conjunto de chorinho acompanha uma cantora de voz agradável.
Vera Nunes & Orlando Villar. 
'Presença de Anita' directed by Italian director Ruggero Jacobbi in 1951, was Maristela Cinematography's very first production starring Vera Nunes & Orlando Villar. with Ruggero in the middle, giving them direction...
Maristela não era MGM e o Jacanã não era Hollywood, mas fazia o que podia para emular os yankees.
 Jaçanã studios working at full throtle...
factory of illusion... Jaçanã, São Paulo, 1951.

Monday, 11 February 2013

'Vou te contá...' 1958

O enredo de 'Vou te contá...' passa quase todo dentro de uma boite em tempo de carnaval. Bonitão, vivido pelo excelente Milton Ribeiro, que ficou famoso como homem-mau em 'O Cangaceiro' (1953) - manda e desmanda no pedaço. Ele quer namorar a cantora da boite (Cinderela), e sequestra o filhinho dela para dissuadí-la a se unir a ele. O sequestro acaba dando errado, e a criança vai parar nas mãos de dona Gaby (Luely Figueiró) jovem senhora do society que encontra o bebê abandonado numa praça de São Paulo, e acaba ficando com ele.

Pagano Sobrinho é Dondóca, jornalista fofoqueiro que está na pista de um outro seqüestro, o do filho do Rei do Prego, rico industrial. O herdeiro do industrial é mantido por Consuelo, uma velha espanhola da confiança de Bonitão. Os capangas do bandido são hilários, pois muito desfuncionais. Bonitão, além de sequestrador de crianças é falsário de whiskey.  

Dona Gaby passa o bebê raptado da cantora para o personagem de Maria Vidal, que leva-o para sua casa, mas briga com o marido-ascensorista, pois esse pensa que o filho é dela. A problemática do filme é que ninguém quer ser 'corno'. Maria Vidal devolve a criança à Luely, cujo marido ciumento (Francisco Negrão) havia se ausentado por 6 meses e começa a desconfiar que sua mulher teve um caso extra-marital durante sua ausência. Vai aí um bocado de erros de continuação, pois não daria para ela ter transado com um amante, ter parido uma criança e ainda estar esbelta daquele jeito. Mas em chanchada tudo é possível, inclusive a presença de Dorinha Duval pintada de negra, fazendo a empregada da Luely e namorada de Chocolate.

Chocolate faz, talvez, o melhor papel do filme, desbancando Pagano Sobrinho, que fica com cenas bem chinfrins.

O melhor do filme está justamente nos números musicais e rapidas aparições do carnaval de rua de São Paulo nos idos 1958. Há alguns enfoques direto da antiga Favela do Canindé, famosa por ter sido o lugar onde se passa o enredo de 'Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus e o trânsito de bondes elétricos numa São Paulo glamourosa que não existe mais. 

Luely Figueiró é a melhor presença feminina. Cinderela mostra suas pernas e suas famosas curvas, mas não convence como mãe do bebê ou viúva de algum malandro que já foi dessa p'r'uma melhor. Cinderela canta um número carnavalesco, 'Batatinha quando nasce... esparrama pelo chão, menininha quando dorme põe a mão no coração'... Pela letra já se nota que é lixo-total do Antonio Borba, cujas composições carnavalescas não sobreviviam dois dias depois dos folguêdos de Mômo! 

Francisco Egydio mostra toda sua elegância em um 'smoking' e gravata borboleta. Risadinha dança com um corpo de bailado e mostra que saber rir em rítmo e métrica certa. Isaurinha Garcia, portando um vestido de gala, com luvas até os cotovelos, não faz muito sentido entre cabrochas da escola de samba do Herivelto Martins. Já Virgina Lane aparece duas vêzes, sendo que da 2a. ela tenta bisar 'Sassaricando' com  'Mão de gato', uma marchinha sobre felinos... miau!

Carmen Costa arrasa com a 'Marcha da banana' uma paródia de 'Day-O' do Harry Belafonte. A letra diz: 'Eu não sou macaco mas eu gosto de banana, eh eh eh, eh eh ah... Eu não sou moenda mas eu gosto de uma cana, deixa quem quiser falar'...

Os Demônios da Garôa cantam sobre o 'Harem do baiano', marcha que fala de Maomé. Nos dias de hoje o compositor iria pensar 2 vezes antes de tomar 'seu santo nome em vão'... com perigo de ter uma 'fatwa' em cima de sua cabeça. 

Ronaldo Golias, que estava começando a ficar famoso em 1958, apresenta um numero não muito convincente. Jorge Veiga já cantou coisas melhores... e Dalva de Oliveira canta sobre as belezas do Rio de Janeiro num filme feito em São Paulo.

12 February 1958 - Maristela's last production 'Vou te contá...' premiered at Cine Marabá just in time for the Carnaval holidays...

Pagano Sobrinho (Dondoca)
Milton Ribeiro (Bonitão)
Chocolate (Chocolate)
Luely Figueiró (dona Gaby)
Cinderela (cantora de boite)
Francisco Negrão (Cesar, marido de Gaby)
Dorinha Duval (Rosa, empregada de Gaby)
Maria Vidal (Marta)

Caetano Gerardi
Neide Pavani
Osvaldo de Souza
Júlio Ramler
Doca
José Mercaldi
Luiz Campos
Ary Fernandes
Carlos Miranda


Risadinha canta 'Alegria de palhaço'... ah ah ah, destacando uma bailarina japonêsa (provavelmente do bairro da Liberdade) ...

Números musicais

Cinderela 'Batatinha quando nasce' (Alfredo Borba-Doca)
João Dias 'Engole ele, paletó' (J. Audi)
Nilton Paz 'Juventude transviada'
Ronald Golias 'Minha bandolinha'
Carmen Costa 'Marcha da banana'
Dalva de Oliveira 'Quem não conhece o Rio'
Risadinha 'Alegria de palhaço'
Francisco Egydio 'Quem é que não chora?'
Demônios da Garoa 'Harém do Maomé'
Jorge Veiga 'Telefonando'
Isaurinha Garcia
Virgínia Lane 'A mamãe vem aí' e 'Mão de gato'

Herivelto Martins e sua escola de samba
Henricão e sua escola de samba
Cid P. de Barros e seu ballet


Os Demônios da Garôa cantam 'Harém do baiano'. 

'Vou Te Contá' - 1958

94 min.
Distribuição: Colúmbia Filmes
Direção: Alfredo Palácios
Assistente de direção: Glauco Mirko Laurelli
Roteiro: Cláudio Petráglia e Glauco Mirko Laurelli
Argumento: Alfredo Palácios
baseado na peça teatral 'O filho do rei do prego', de Gastão Tojeiro
Produção: Mário Marinho e Alfredo Palácios

Direção de produção: Ary Fernandes
Gerente de produção: Sérgio Ricci
Co-produção: Cinematográfica Maristela
Música: Luiz Arruda Paes
Sonografia: Jacques Lesgards
Assistente de Som: Konstantin Tkaczenko
Fotografia: Rudolph Icsey
Câmera: Adolfo Paz Gonzalez
Assistente de câmera: Osvaldo de Oliveira
Cenografia: José Pereira da Silva
Montagem: Maria Guadalupe
Assistente de Montagem: Huguete Lesgards

Último filme da Maristela, rodado em 25 dias.

Segundo Mário Audrá Júnior: "Como eu estive na Espanha durante quase toda a rodagem deste filme, Palácios, além de dirigi- lo, também foi praticamente o produtor executivo. O título tornou-se expressão popular e fixou-se de tal maneira que incrivelmente perdura até os dias de hoje".

PAGANO SOBRINHO - pequena biografia 

Fioravanti Pagano Sobrinho nasceu em São Paulo-SP em 11 Novembro 1911 (11-11-11). Cursou o Colégio São Luiz. Trabalhou como radio-ator e tornou-se um dos maiores humorístas do país. Seu humor era leve, sofisticado e 'camp' (quando essa expressão ainda não existia). Apareceu em 'A estrada' (1955) da Mayra Filmes, 'Casei-me com um Xavante' (1957), 'Chuva de estrêlas' e 'Noites em Copacabana', além desse 'Vou te contá...', a última produção da Companhia Maristela, situada no bairro do Jacanã em São Paulo.

Muitas vêzes, o humor que Pagano desenvolveu no radio, não era bem 'transportado' para o cinema ou TV. Em 'Vou te contá...' o diretor aproveita Pagano em uma cena onde ele fala ao telefone, para, na verdade fazer o humor que ele fazia no radio. Infelizmente a cena fica 'morta', já que cinema não é radio.

Nos anos 1960, Pagano se associa à Maria Tereza, a Terezóca, fazendo sketches engraçadíssimos na Radio Excelsior e Nacional. Ambos tinham muita sofisticação e sabiam explorar o lado 'leve' e 'camp' do humor. 

Em 1962 morava na Rua Barão de Limeira, 118 , apto 34 - fone: 36-6171


Final típico das comédias-musicais tanto cariocas quanto paulistas: muita confusão e pancadaria dentro de uma boite, vendo-se em 1o. plano o bandido Bonitão (Milton Ribeiro) agredindo Chocolate enquanto a Guarda-Civil tenta impôr alguma ordem no precinto. Lá no fundo, nota-se Cinderela segurando a valise com o dinheiro do resgate do bebê do 'Rei do Prego', que no final é compartilhado por todos. Happy End!

Chocolate MCs a 'Cestas de Natal Amaral' programme at TV Record in 1958

Sunday, 2 September 2012

'Maria 38' - 1959

Eliana como 'Maria 38' lançado em 1959.

Eliana Macedo (Maria Pereira)
John Herbert (Chico, guarda-civil)
Mario Motta - Marinho [o menino]
Anabela (Aninha)
Herval Rossano (Henrique, chauffeur)

Zilka Salaberry (mme. Eugênia Fernandes)
Afonso Stuart (tio Gustavo)
Roberto Duval (Eurico, bandido)
Augusto Cesar Vanucci (Boquinha, malandro)
Sergio Warnovsky (Brucutu)

Francisco Dantas [mordomo]
Angelito Mello [comissário de polícia]
Aguinaldo Rocha (Cardoso, asssistente do comissário)
Nena Napoli (Leda Pé-de-Porco)


Marinho num daqueles chapéus típicos dos anos 50. 

Zé Bacurau [personagem do cabaré]
Paulo Copacabana [guarda, amigo do Chico]
Chiquinho [cozinheiro]
Alberto de Castro [dançarino]
Nair Campos Motta [copeira]
India do Brasil [empregada]
Carlos Artur
Luiza Camargo
Perácio Camargo
Marlene dos Santos
Conrado Freitas
Azelita Ivantes
Roberto Machado
Manula
Manuel Martins
Murilo Matheus
Yolanda Moura
Dedé Pinheiro
Iracilda Vieira

o guarda Chico convence Maria a devolver a carteira que tinha 'aliviado' do otário. 

Nunca tinha visto 'Maria 38', o filme 'quase-sério' que Eliana protagonizou em 1959. Tinha até medo de vê-lo com receio de me decepcionar, mas qual o que, o filme é ótimo! Maria 38 tinha esse nome pois sempre carregava consigo um revolver calibre 38 mm.

Eliana aparece exageradamente maquiada, abusando de gestos largos, numa coreografia do 'vai-não-vai' que era voga nos anos 50. Hoje malandro não tem essa linguagem corporal mais. Eliana, como Maria 38, está bem caricata, mas não tanto que estrague o personagem.



'Maria 28' was released in São Paulo in 21 March 1960, after a big advertising campaign showed a 'Maria 38 wanted' ad in which this perilous criminal was wanted by the police. 



daily OESP's review of 'Maria 38' released in S.Paulo in 21 March 1960.

Maria 38 era uma vigarista com um coração-de-ouro, fazendo aqui um cafézinho para o guarda-civil Chico [John Hebert], enquanto ele tenta convencê-la a 'sair dessa vida'.
Maria 38 se transforma em Mary Poppins.
o mordomo (Francisco Dantas), Maria e Marinho. 

A gíria do texto é toda na base do 'parangolé', 'gororóba' [comida], xavecagem [xavecar]; ou expressões como 'desafina na ladainha'; hoje as pessoas não sabem nem o que é 'ladainha'   - 'desembuchar' [contar tudo], 'rasgar o verbo' etc. A maioria não sobreviveu ao tempo, mas são bem divertidas para se relembrar. 

Maria era batedora-de-carteiras e freqüentava um cabaret da Lapa. Na delegacia alguém comentando sobre uma das peripécias de Maria 38 diz: 'Ela aliviou o crocodilo de um otário!' Crocodilo sendo o couro do qual eram feitas as carteiras mais chiques.

Maria, na verdade, é um personagem saído da cabeça do Watson Macedo, pois está muito longe da realidade. Se pelo menos ela fosse mulata, faria mais sentido, mas daí não haveria o filme. Mesmo assim, suponhamos que existisse uma moça branca bonita, conhecida como 'vigarista', mas não necessariamente prostituta. Veja que o roteiro é todo montado longe da realidade. Maria nem gigolô tinha, mas o guarda-civil Chico [John Hebert], um rapaz de bons modos, que era uma espécie de anjo-da-guarda da moça, sempre tentando colocá-la no 'bom caminho'.


Tio Augusto (Afonso Stuart)  e tia Eugênia (Zilka Salaberry) ao telefone negociando os 5 milhões a serem pagos pelo resgate de Marinho.

Maria acaba se envolvendo com três tranqueiras, habitues do cabaret: Eurico [o sinistro Roberto Duval], Boquinha [Augusto Cesar Vanucci] um jovem vagabundo vestindo terno de linho-branco, e Brucutú [Sergio Warnovsky]. Esses planejam o rapto de um menino grã-fino e para isso Maria 38 se disfarça de babá para ficar mais perto da cena do crime. 

A cena da chegada de Eliana ao solar da familia Fernandes lembra muito a chegada de Mary Poppins [sans seu guarda-chuva] no filme de Disney feito 5 anos depois. A dona da casa é madame Eugênia Fernandes [Zilka Salaberry], que como grã-fina não deixa de lembrar a adorável Heloísa Helena, que era excelente nesse estereotipo. 

Aninha [Anabela], a irmã mais velha de Marinho, é apaixonada por Henrique [Herval Rossano], o chauffeur da familia - e logo fica amiga de Maria 38. Há um mordomo sizudo [Francisco Dantas] e o tio Gustavo [Afonso Stuart] que é boa-praça, não se importando com o namoro da sobrinha com o motorista. 

A trama é simples, e o filme gira em torno desse eminente rapto de Marinho. Maria 38, que a principio não sabia que o crime que cometeria era sequestro de criança, se rebela e conta tudo para o tio Gustavo. 


Marinho faz os seqüestradores de gato e sapato... 
os tranqueiras Brucutú, Boquinha e Eurico e Marinho, o menino seqüestrado.

O menino é finalmente seqüestrado, mas tudo acaba bem no final, com o casamento de Maria 38 com o guarda Belo, digo o guarda Chico. Aninha fica com o bonitão do Henrique e vivem felizes para sempre. Ah, não vou contar quem é o chefão da bandidagem para não estragar àqueles que eventualmente assistirem o filme. 



Maria 38 - 1959
90 min. -  distribuição: Cinedistri
direção: Watson Macedo
roteiro: Watson Macedo e Ismar Porto
argumento: Ismar Porto
produção: Watson Macedo Produções Cinematográficas
música: Lírio Panicali
fotografia: Amleto Daissé
desenho-de-produção: Watson Macedo e José Santana
figurino: Elia Macedo de Souza
edição: Watson Macedo


Maria 38 & Aninha (Anabela).
o mordomo antipático, Maria 28 e Aninha. 
John Hebert & Eliana - par romântico de 'Maria 38', de 1959. 

O ponto alto do filme é a apresentação de Moreira da Silva cantando 'Na subida do morro' cuja letra segue:

NA SUBIDA DO MORRO - Geraldo Pereira

Na subida do morro, me contaram que você bateu na minha nega 
isto não é direito / bater numa mulher que não é sua 
deixou a nega quase crua no meio da rua / a nega quase que virou presunto!
Eu não gostei daquele assunto  / hoje venho resolvido
vou lhe mandar para a cidade-de-pé-junto  / vou lhe tornar em um defunto 

Você mesmo sabe que já fui um malandro malvado
somente estou regenerado /  cheio de malícia dei trabalho à polícia p'ra cachorro 
dei até no dono do morro / mas nunca abusei de uma mulher que fosse de um amigo
agora me zanguei consigo / hoje venho animado / a lhe deixar todo cortado
vou dar-lhe um castigo / meto-lhe o aço no abdome e tiro fora o seu umbigo 

recitativo:

“Aí meti-lhe o aço, hum! Quando ele ia caindo, disse: 'Morangueira, você me feriu!
Eu então disse-lhe: 'É claro, você me desrespeitou, mexeu com a minha nega. 
Você sabe que em casa de vagabundo malandro não pede emprego!'
Como é que você vem com xavecada, está armado; 
eu quero é ver gordura, que a banha está cara. 

Aí meti a mão lá na duana, na peixeira, é porque eu sou de Pernambuco, 
cidade pequena, porém decente. 
Peguei o Vargolino pelo abdome, desci pelo duodeno, 
vesícula biliar e fiz-lhe uma tubagem; ele caiu, bum, todo ensanguentado.

E as senhoras como sempre nervosas: 'Meu Deus esse homem morre, moço. 
Coitado olha aí está se esvaindo em sangue!' Ora, minha senhora, dê-lhe óleo canforado, penicilina, estreptomicina crebiosa, engrazida e até vacina Salk.
Mas o homem já estava frio. Agora o malandro que é malandro não denuncia o
outro, espera para tirar a forra. Então diz o malandro:

Vocês não se afobem que o homem desta vez não vai morrer 
se ele voltar dou p'ra valer / vocês botem terra nesse sangue / não é guerra / é brincadeira vou desguiando na carreira / a jungusta já vem / e vocês digam que eu estou me aprontando enquanto eu vou me desguiando / vocês vão ao distrito ao delerusca, se desculpando foi um malandro apaixonado que acabou se suicidando.



A música interpretada por Moreira da Silva nesse filme é o clássico "Na subida do morro", composta por Geraldo Pereira e adquirida pelo cantor para gravação. Moreira a lançou na Continental em maio-junho de 1952 (disco 16553-B, matriz C-2816) e a regravaria outras vezes, porém na edição e nos discos só foram creditados como autores o próprio Moreira e Ribeiro Cunha, que fazia os chapéus do cantor, sem menção alguma a Geraldo Pereira. Estranho...

Eliana & Marinho.

Monday, 6 August 2012

Eliana na revista 'Carioca' - 1950



Eliana na capa da revista Carioca - 2 Novembro 1950.






A  'MISTERIOSA'  ELIANA

Eliana, a festejada estrêla do cinema brasileiro está rodando o seu terceiro filome, com o mesmo elenco de 'Carnaval no fogo'. Neste numero reportagem detalhada em torno da vida da jovem artista nacional. 

Eliana, a loirinha capixaba que Watson Macedo laçou no estrelato há menos de 3 anos, segundo informações que obtivemos de seus amigos. era uma criatura que nunca se definia. 

Muito misteriosa, geralmente triste, parecendo, por isso, encerrar uma grande tragédia em sua vida. E afirmava: não é simulação! Eliana sofre. É muito sensível, não resistindo, portanto, ao que lhe vai n' alma. 

Porém, fomos visitar Eliana em seu apartamento em Niterói-RJ, conversamos demoradamente com ela que, sem deixar transparecer a personalidade de Elza, mostrou que Helena é mais patente em sua vida, tão patente como poderia ser Elza se por acaso sua alma se sentisse envolvida por um grande e nobre sentimento: um amor.

Com tragédia ou não, Eliana demonstra ser uma criatura alegre, sem no entanto fugir a constantes momentos de introspecção. Quando seus olhos se lançam sobre um objetivo, o cérebro trabalha árduamente procurando deduzir, criticar ou julgar. 




Eliana & Grande Othelo em 'E o mundo se diverte' - 1948.

ELIANA  E  O  CINEMA

A vida artística de Eliana começou ha muito tempo; desde colegial que ela sabia que seria artista de cinema. Sendo sobrinha do diretor Watson Macedo, êste, quando Eliana ainda era uma criança, descobriu a sua veia artística, ficando convicto de que a então Eli Macedo poderia se tornar uma grande artista. 

Eli representava muito bem na escola: declamava e cantava musicas populares, predicados êsses que lhe valeram um contrato com a Radio Nacional. E Watson decidiu: ela será uma artista! Tempos depois, já moça, o titio diretor chamou-a e disse: - 'É chegado o momento!'

Tudo estava preparado, menos Eliana, que relutava, achando que seria dificil, além disso ela estava enamorada... quase noiva.

Tratava-se do filme 'E o mundo se diverte', produção de 1948, em que a jovem trabalhou, como até hoje, ao lado de Anselmo Duarte, que a artista reputa o melhor ator do cinema nacional. Assinou um contrato com a Atlântida e, depois das filmagens iniciais, sucedeu um imprevisto. Eliana foi ver-se na tela e quase chorou. Que decepção! Achava que o espêlho era mais fiel, teve desejos de desistir, mas já era tarde pois a companhia não quis rescindir o contrato nem perder o dinheiro empregado na pelicula. Contudo, essa má impressão desapareceu em 'Carnaval no fogo' de 1949, onde Eliana conheceu Francisco Carlos, que andou enamorado da artista. 

Aliás, Eliana é feliz nesse particular. Possui grande numero de admiradores, recebe propostas de casamento, sem que essas propostas exerçam qualquer influência sôbre seu espírito. Gosta de cinema e o coloca acima de tudo. Prova o que dizemos o seu noivado posterior à carreira artísta e que desapareu queimado pelas cinzas de 'Carnaval no fogo', queimado pelos ciúmes de um homem que não se conformava com os beijos artísticos do cinema, que apesar de tudo, não deixar de ser beijos...

O  TERCEIRO  FILME

Eliana está rodando, agora, a sua terceira película na Atlântida. Trata-se do carnavalesco 'Aviso aos navegantes'. Watson Macedo escolheu os mesmos atores que trabalharam em 'Carnaval no fogo', o maior sucesso do gênero comédia-musical feito no Brasil. Veremos nêle a simpática Adelaide Chiozzo e, provavelmente, Silvinha Chiozzo, a maravilhosa garota que promete deixar Adelaide no rastro. Esperemos, pois.

AS  PALAVRAS  DE  ELIANA

Passamos 3 horas em casa de Eliana, ao lado de sua mãe, uma senhora simpática e bondosa, que sabe também fazer café. Várias amigas de Eliana se encontravam no apartamento. Eliana, sempre alegre, contava-nos detalhes de sua vida, com uma discrição inacreditável. Geralmente os artistas, mesmo confidencialmente, fazem comentários sobre a arte e a personalidade dos amigos. Eliana, não. Provocávamos sua lingua, que talvez coçasse... mas Eliana não foge aos seus princípios, respeitando, o que é raro, a vida dos colegas.

Depois do cafézinho, Eliana fez algumas declarações. Incialmente desmentiu êsse mistério que paira em torno de seu nome. Depois, com naturalidade, afirmou que para ela não existe passado nem futuro. Não pretende se casar.

Pelo menos até o presente o seu principe não foi desencantado. Perguntamos: -  'E o futuro artístico?

- O futuro está nas mãos do futuro. Preocupo-me bastante com o dia de hoje. Amanhã é amanhã. Não se pode viver se se vive perdido em cogitações...

Apesar disso, notamos que Eliana estava evitando fumar por ter que cantar logo mais. Bem, ainda se tratava do presente. Mas, a dieta relativa da artista?...

Eliana, a garota realista e agradável não está comendo o bastante, à vontade, porque não quer engordar. Pesa 52 quilos e quer se agüentar nisso mesmo. Por acaso isso não é futuro?

Talvez não, porque o objetivo da moça é continuar com o presente pêso, cinqüenta e dois quilos. 


Revista Carioca  - 2 Novembro 1950.
reportagem: Vinicius Lima
fotos: Domingos Pereira  




Eliana e sua mãe no apartamento em Niterói-RJ.



Eliana e seu vira-lata favorito, encontrado numa rua de Niterói, junto a seu fiel aparelho de radio. Em 1950 ainda não existia televisão no Brasil. 

Sunday, 5 August 2012

'Titio não é sopa' - 1960

3rd April 1960 - Atlântida's 'Titio não é sopa' opens in 17 movie houses in Rio de Janeiro-DF. 

Eliana, Procópio Ferreira, Herval Rossano e Ronaldo Lupo.
a filha adotiva entra no esquemão de Paulo (Herval) mais que depressa, para poder se apresentar como cantora na boite do namorado embrulhão.

Titio Não é Sopa - 1960

Procópio Ferreira (Gregorio)
Eliana Macedo (Verinha, enteada do titio, que herdará metade da fortuna)
Herval Rossano (Paulo de Almeida Rios, sobrinho herdeiro da outra metade da fortuna)
Ronaldo Lupo (Luiz, acaba se tornando mordomo-de-araque)
Nancy Montez (July, co-proprietária da boite 'Casablanca'; vigarista)

Zélia Guimarães (Isaltina, empregada da casa)
Afonso Stuart (Amaro, dono da casa, que acaba sendo cozinheiro-de-araque)
Delfim Gomes (pedreiro da obra da fabrica de biscoitos, 'disfarçada' de asilo)
Grace Moema (Emengarda)
Sônia Morais (Aurora)
José Policena (engenheiro da fábrica de biscoitos)

Rafael de Carvalho (Azevedo)
Paulo de Carvalho (Gaspar)
Grijó Sobrinho (o vizinho)
Angelito Mello (Paranhos)
Azelita Ivantes (Beatriz)
Luiz Mazzei (garçom)
Chiquinho (garçom)
Wilson Grey  (detetive contratado pelo tio)

Nancy Montez (Julie) e Herval são sócios da boite Casablanca. 

83 min.
Altântida Cinematográfica & Cinedistri
direção: Eurides Ramos
roteiro: Eurides Ramos e Victor Lima
música: Radamés Gnatalli e Vicente Paiva
produção: Oswaldo Massaini e Cinedistri
assistente de produção: João Macedo
coreografia: Helba Nogueira

Procópio Ferreira, Ronaldo Lupo e Afonso Stuart ... muita confusão.
Ronaldo Lupo, Herval Rossano e Nancy Montez... muita vigarice e confusão.
Verinha (Eliana) dá uma surra na Julí, numa das melhores cenas de briga feminina que já assisti no cinema nacional.

Com base na peça teatral "Titio não é sopa" (também conhecida como "Aí vem a Aurora", "Seu Gregório chegou", "Espírito de porco" e "Amigo da onça"), de Henrique Marques Fernandes.

Números musicais:

"Quero beijar-te as mãos" guarania (Arcênio de Carvalho e Lourival Faissal) com Anísio Silva

"Mamãe eu quero" fantasia (Jararaca - Arranjo de Vicente Paiva e José Calazans, com orquestração de Pachequinho) com Eliana Macedo

"Baiano burro nasce morto" (Waldeck Artur de Macedo) com Gordurinha e Mário Tupinambás.

Anísio Silva canta 'Quero beijar-te as mãos', o disco mais vendido de 1959.

Eliana, a filha adotiva, Herval Rossano, o sobrinho malandro, titio disfarçado de norte-americano, o sogro do Luiz [Ronaldo Lupo] e o próprio vigarista disfarçado de mordomo numa farsa das mais engraçadas.

Em 1959 o Brasil vivia quase que um sonho. Vivíamos a esperança do amanhã feliz, tendo ganhado a Copa do Mundo de Futebol em 1958, e nossa parada de sucesso sendo das mais interessantes do mundo. O cinema nacional vivia quase que um apogeu pré-cinema-novo. Eliana estrelava em mais uma comédia junto agora de Herval Rossano, o galã mais atraente do momento, tanto que foi amante de Bibi Ferreira, Sylvia Telles e muitas outras divas. Além de Herval tínhamos o Ronaldo Lupo, que não era de se jogar fora.

A farsa é das mais inconsequentes, mas com tudo para dar certo. Tio Gregória vem lá do interior visitar o sobrinho Paulo, com o qual ele deixou a incumbência de construir um abrigo para velhinhos. Paulo, que é pistonista, está de amores com July, uma vigarista da noite, e acaba comprando uma boite [Casablanca] com ela, onde ele próprio se apresenta todas as noites.

No final, o velho descobre toda a trama, finge-se de empresario norte-americano que quer comprar a boite. Justo nessa noite, sua querida enteada estréia no night club... e o número apresentado é, talvez, um dos mais bem elaborados do cinema nacional. Uma fantasia inspirada em 'Mamãe eu quero', de Jararaca, com um arranjo sensacional de Vicente Paiva e José Calazans, e orquestração do maestro Pachequinho. Eliana canta  ao lado de um clarinetista vindo direto de filme hollywoodiano; um pistonista dos mais eróticos, um contra-baixista que sabe mexer com suas cordas. Um número musical do mais sensual possivel... tudo alí exala testosterona misturado com a estrogerona da Eliana, numa saia mais mini que a da Mary Quant. O final do número mostra um Herval Rossano soprando um piston e querendo alcançar um climax, que mais parece um orgasmo... quando ele, enfim, consegue atingir a nota mais alta ... uma das moças desmaia. Não sei como esse número musical não se tornou um clássico instantâneo. Se fôssemos norte-americanos, certamente teria entrado para o hall dos clássicos eternos.

Herval sopra seu piston com alma...

apoteose musical feita com muita sensualidade...
a confusão final é hilária... as esposas de Luiz e Amaro mandam ver com pau de macarrão nas mãos